natureza morta

natureza morta 8, 2003

(fotografia)

naturaza morta 7, 2003

(fotografia)

 

 

SONETO DA ROSA

“Mais um ano na estrada percorrida

vem, como astro matinal, que a adora

molhar de puras lágrimas de aurora

a morna rosa escura e apetecida

e da fragrante tepidez sonora

no escuro, como ávida ferida

guardar o plasma múltiplo da vida

que a faz materna e plácida, e agora

rosa geral de sonho e plenitude

transforma em novas rosas de beleza

em novas rosas de carnal virtude

para que o sonho viva da certeza

para que o tempo da paixão não mude

para que se una o verbo à natureza.”

Vinícius de Moraes

 

quem crê nunca está só, 2003

(fotografia digitalizada e alterada, 7x10cm)

 

“Natureza morta” é uma série de imagens de arranjos florais capturadas em um cemitério de São Paulo (onde a natureza está muito presente e os túmulos são grama verde), e em outro no Chile (de deslumbrante beleza em sua vegetação nativa).

No conjunto desta obra vemos retratos de arranjos de flores artificiais. São homenagens oferecidas aos mortos pelas suas famílias, um mecanismo de oferenda, que mantém o espaço aparentemente vivo, colorido e conservado por mais tempo. Estas flores não chegam a ser eternas, mas seu tempo de vida é gritantemente mais longo que suas similares naturais. Na superficialidade da imagem está a beleza, no contato mais íntimo a estranheza de sua realidade.

A estes retratos estão somados uma frase de uma publicação religiosa e uma coroa funerária. Na mensagem podemos ler: “Quem crê, nunca está só.”. Esta é a frase cravada por um quase-ouro sobre um quase-pergaminho na tez de um quase-veludo de uma quase-bíblia.

“Sem tílulo 111” é a única imagem que apresenta flores naturais, em toda sua frescura em transformação, são tons amarronzados pelo tempo ainda ofuscados pelos tons coloridos das flores mais conservadas, esta é a coroa vista pela artista, imagem invertida, como se colocássemos nossos pés para o alto. Uma homenagem ao pai, sorridente, entregando a terra aos céus.

“Natureza Morta” é um grupo de obras que remetem à criação humana. É uma consideração sobre o que julgamos natural em contraposição ao criado pelo homem. É a automatização presente em representações belas, curiosas e reais. Qual será esta estranheza que nos toca? É por querermos ser práticos também em nossa relação com nossos mortos, ou seria por não querermos encarar a transitoriedade, por não suportarmos a putrefação, a transformação da matéria, e por consequência de nós mesmos?

Criação-natureza-morte são os pilares básicos de reflexão em que a série “Natureza Morta” se fundamenta. Sempre perturbada/visitada pelo julgamento de valor sobre nossas posturas. Julgamento que, em nossa realidade, se mostra tão instável e mutável em suas definições. Assim como é nossa compreensão a respeito do sagrado e do profano, do bem e do mal.

Mas, se é por sempre julgarmos que criamos parâmetros e conceitos, então não podemos negar este mecanismo. E, como Vilém Flusser coloca em seu livro “Ensaio sobre a fotografia, para uma filosofia da técnica”: “…a filosofia da fotografia é necessária porque é uma reflexão sobre a possibilidade de se viver livremente num mundo programado por aparelhos.”, é então a filosofia da imagem, da palavra e da representação, que devemos julgar. E ainda nas palavras de Flusser: “Filosofia urgente por ser ela, talvez, a única revolução ainda possível.”.

Poderia a criação do homem ser vista como impura, ou não creditável de louvável valor? O crescente conhecimento adquirido por nós, e domínio de linguagem, podem ser condenados? Podem a fé e a criação humana ser consideradas artificiais? Não seria o artificial desajeitadamente humano e natural?


Luciana Ciglioni Martins Costa

111, 2003

(fotografia)

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Uma resposta to “natureza morta”

  1. Cristian Carvalho Elias Says:

    Sensacional.

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