marcas

 

algodão, 1997

(fotografia)

 

Efêmero para sempre


Ao primeiro contato com o trabalho “Marcas” de Luciana Costa, o que se vê são imensas superfícies rosadas. Essas fotos fazem parte de uma série de trabalhos referentes à superfície humana; são ampliações de fotografias de detalhes de partes do corpo, com diferentes marcas, provocadas na maior parte delas por pressão de roupas sobre a pele. Tudo muito simples na verdade.

Mas justamente no despojamento reside a força desses trabalhos: o procedimento de mostrar a marca de algo não mostrado nos faz refletir sobre a interioridade, algo que nos foi escondido. E de fato o procedimento no trabalho de Luciana nos é oculto. Apenas tomamos contato com seu resultado. Percebemos o corpo em função de cor e textura, e não por seu conjunto de formas – visto que está tão próximo que nos parece um fundo infinito.

Mesmo auto referentes, ultrapassam a barreira pessoal quando indentificamos, como tema, o imposto cobrado à mulher pela sociedade por sua anatomia e todos adereços que a revestem.

E, como no universo da sensibilidade, o melhor não se situa necessariamente no real e sim no possível, prefiro situar suas investigações no campo dos desejos e não do realismo. Não seria incorreto situá-la no hiperrealismo agigantado da fotografia, mas tudo nos leva a elaboração plástica da imagem – e não apenas a captação do real. As ampliações, a figuração ambígua, apenas antevendo o corpo da mulher como desejo/desejável.

Ainda assim trata do desejo de uma forma sensível, nunca vulgarizando, seu alvo, vai muito além do desejo erótico, procura a forma e a beleza. Uma beleza questionada pela condição da vida contemporânea – as marcas das roupas, a pressão importa ao corpo feminino (a princípio, mas qual corpo humano não recebe pressão? Disso trata a vida…).

E de certa forma ao registrar esse momento de marca – daí sua função fotográfica – como artista está eternizando esta situação, nos deixando visível algo que todos sabemos existe, e ainda assim nunca tínhamos reparado. Não se trata em absoluto de uma obra angustiada: tem um procedimento racional e organizador, a favor da natureza.

As marcas situam-se sobre o corpo como se estivessem em uma fotografia aérea sobre as montanhas de Nazca, ou talvez nos caminhos dos cupins. O universo traduzido em palimpsestos, o sem-fim da matéria pele. Só o amante ou o cientista poderiam supor um corpo assim agigantado, ou talvez o astronauta, a bordo de seu delírio mais completo, pudesse amar a mãe-terra daquela maneira e chorasse cada estrada construída à força de sangue de trator.

As fotografias de Luciana permanecem puro enigma, traçados cujos vestígios de uma operação oculta permanecem.


Eduardo Verderame 2000.

 

 

imagem de capa: “Algodão”, 1997, Luciana Costa


Vejam o livro lançado pela Editora Hedra

A VÊNUS DAS PELES, Sacher-Masoch

 

 

 

ventre, 1997

(fotografia)

 

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5 Respostas to “marcas”

  1. Tche Ruggi Says:

    Olá, tudo bem ??
    Muito bom seu trabalho !
    explorando a efemeridade da pele, a efemeridade dos acontecimentos.
    Estou ajudando uma amiga a desenvolver seu Trabalho de Conclusão de Curso, pela Universidade de Belas Artes de São Paulo. sobre as marcas na pele.
    Gostaria de saber se você teria alguma referência de outros artistas e escritores, que publicaram material sobre essa linha de pesquisa ?
    e onde posso encontrar este livro mencionado a cima ?
    Muito Obrigado.

    Tche Ruggi

    • lcmc Says:

      Oi Tche

      que bacana que gostou, espero que seja útil para sua amiga.
      Olha o livro tem nas livrarias, é literatura mesmo, acho que não é difícil de achar…
      Sobre as referências assim de cabeça lembro de pouca coisa… tem uma artista mais ou menos da mesma época que eu que chama Del Pilar Salum e um colega das antigas Rafael Assef que acho que tem a ver. Tenho alguns textos em casa, semana que vem que estarei por lá posso dar uma olhada para vcs…

      que lindo seu trampo, faz tempo que vc ta nas ruas?
      por onde anda agora?

      abraço

      Luciana

  2. lcmc Says:

    Oi Tche
    gostei demais deste aqui

    saudações amn321cas

    lindo!

  3. Tché Ruggi Says:

    Legal Luciana..
    valeu !
    minha primeira experiência na rua foi em 2000,
    daí parei e fiquei estudando outras coisas e referências,
    mas sempre com uma atenção na rua.
    em 2006 voltei a pintar na rua, onde começei a desenvover
    toda essa pesquisa que viste. Essa foto que gostou
    é de uma faze que marcou meu reinício no Graffite.
    Mas agora estou em outro momento, outras pesquisas.
    Ainda continuo pintando nas ruas e não pretendo parar tão cedo,
    uma vez que isso faz parte do meu processo de pesquisa.
    Estou na rua mas também, temos um atelier onde produzimos e discutimos questões de arte como pintura, musica, literatura e cinema.
    está o blog do atelier algumas atividades que participamos.
    http://www.coletivo132.worpdress.com
    A propósito, Rafael Assef conhcí seus trabalhos e é bem interessante.
    Tem uma outra artista que faz coisas mais semelhante a sua pesqusia.
    é uma holandeza chamada Ninette Van Kamp, só que ela carrega uma questão bem crítica no seu estudo.
    Muito bom converçarmos
    Obrigado pelas referências
    Grande abraço.

    Tché

  4. Tché Ruggi Says:

    Ah..
    desculpa minha ignorância…
    o seu trabalho segue nessa linha de pensamento também,
    o fato das mulhers usarem adereços e muitas vezes
    interferindo na pele com perfurações, escarificações e tatuagens, como
    em muitas tribos de indios e aborígenes, para muitas sociedades e culturas
    grande abraço

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